Campinas da 3ª idade não para de crescer – e suas demandas também

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Foto: Pixabay

Se formassem uma cidade independente, os 185,8 mil moradores de Campinas com idades acima de 60 anos – conforme projeções de 2019 do IBGE – representariam hoje o 45º maior município entre os 645 do Estado de São Paulo.

É um contingente enorme de pessoas, com características específicas e que, por isso, exige ações públicas diferenciadas para garantia de seus direitos civis, saúde, renda e segurança. Demandas que só tendem a crescer, segundo um estudo inédito sobre as condições locais dessa população divulgado no início do mês.

Encomendado pelo Conselho Municipal do Idoso, o “Diagnóstico da Situação da População Idosa” fez um mapeamento das áreas de vulnerabilidade social para a terceira idade no município e também projetou a representatividade desse público nas próximas décadas.

Conforme os dados apresentados, essa população representa hoje 16% do total de habitantes de Campinas – índice que daqui a 30 anos, em 2050, deverá dobrar, chegando a 32,3% (quase um terço dos moradores da cidade). Para planejar seu atendimento, foram verificadas as regiões onde os idosos se concentram e também as áreas em que enfrentam mais dificuldades.

O estudo foi desenvolvido por sociólogos da empresa “Ação Social & Políticas Públicas”, com equipe de campo formada por estudantes de Serviço Social da PUC-Campinas, entre dezembro de 2018 e abril de 2020. “Quando comparamos todas as faixas de idade, vemos que apenas as faixas etárias de jovens (até 29 anos) em Campinas apresentam uma parcela mais baixa na comparação com o geral do Estado. Essa tendência se inverte (passa a ter taxas maiores que no Estado) na faixa dos 30 a 34 anos e se mantém constante. Isso significa que, mantidas as atuais tendências, a população idosa de Campinas estará aumentando sua participação nos próximos 30 anos”, ressalta um trecho da pesquisa.

Conforme os dados levantados, os idosos mais velhos, com mais de 80 anos, estão concentrados no Centro. A mesma situação ocorre na faixa entre 70 a 79 anos, mas já com alguma dispersão para outras áreas. De 60 a 69 anos, essa dispersão é bem maior, mas com destaque para os bairros que ficam na direção Centro-Viracopos, rumo às regiões Sul e Sudoeste.  

Vinda de Belo Horizonte para Campinas há nove anos, a ex-chef de cozinha Marlúcia Santos, de 76 anos, integra parte dessa população da terceira idade que buscou o Centro para se estabelecer. Segundo ela, apesar de ter “suas vantagens e desvantagens”, é sem dúvida a área mais adequada para garantia de sua independência. “Não me vejo em outro lugar, eu adoro isso aqui”, diz. “Tem bancos, mercadinhos… para mim é fundamental, pois eu posso fazer tudo a pé. O que pega um pouco é a segurança”.

Apesar de nunca ter sido assaltada, Marlúcia diz que não são raros os relatos de ataques na região central, e por isso fica atenta e evita circular em dias de “maior risco”. “Essa questão de assaltos, acho que não é só o Centro, é a maior parte de Campinas. Mas aqui nessa região, sábado e domingo é um horror. Há menos movimento, menos polícia, as ruas ficam um deserto. Então eu evito sair nesses dias”, afirma.

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Marlúcia Santos em seu apartamento no Centro de Campinas Foto: RadarC

Vulnerabilidade

Em relação à “vulnerabilidade”, definida por índices de renda, estrutura familiar e urbana, expectativa de vida, educação e também registros de violência de todo tipo (exposição a crimes como roubo e extorsão; acidentes de trânsito; lesões e abandono) foram identificadas as áreas com maiores desafios a serem vencidos. Os números foram obtidos a partir de boletins de ocorrência policiais e índices sociais que consideram os período de 2017 a outubro de 2019.

Pelos mapas elaborados, os acidentes de trânsito envolvendo pessoas da terceira idade, por exemplo, ocorrem mais no Centro, Guanabara e Taquaral. Já crimes contra patrimônio, como assaltos, são mais comuns no Cambuí (ainda uma área central), Ponte Preta, Proença e Vila Padre Manoel da Nóbrega. 

Mas, na questão de renda, onde se concentram os idosos mais pobres e dependentes de benefícios sociais governamentais, o eixo se volta para os bairros do extremo Sul e para os distritos de Campo Grande e Ouro Verde. Nessa categoria, são mais vulneráveis os idosos que vivem no entorno dos bairros Campo Grande, Valença, São Luiz, Itajaí, Lisa, Florence, Satélite Íris, Jardim Planalto, Distrito Industrial, Campo Belo, Jardim Fernanda e Jardim Viracopos.  

No recorte que considera o panorama geral das dificuldades e violências vividas pelos idosos, 52,9% das vítimas são homens e 47,1% mulheres. “Apesar de não conseguirmos identificar o motivo dessa diferença, levantamos duas hipóteses. A maior atividade econômica exercida pelos homens ou a maior exposição pública masculina”, diz o texto do estudo, considerando que no geral da população idosa as mulheres são maioria (57,6%).

Só que em relação especificamente ao tipo de violência considerado “contra a pessoa” –  ou seja, doméstica, de lesão, ameaça, estupro – o índice se inverte. Nesses casos, 52,3% das vítimas são mulheres e 46,7%, homens.

Economia

O mapeamento também revela que dos idosos que vivem em Campinas, 25,3% continuam economicamente ativos – seja por ainda não terem se aposentado ou por se manter trabalhando mesmo após obter essa condição. Esse índice, porém, é um pouco mais desatualizado, baseado no Censo Populacional de 2010. Dessas pessoas que seguem no mercado, 15,9% são homens e 9,4% mulheres. 

“A participação na atividade econômica aumenta conforme aumenta a faixa de renda dessas pessoas. Somente 10% dos idosos com rendimento até um salário mínimo e 70% com renda acima de 20 mínimos declararam-se economicamente ativos”, revela a pesquisa.

Prefeitura

Segundo a Prefeitura, a empresa que elaborou a pesquisa foi contratada por meio de processo licitatório, utilizando recursos do Fundo Municipal para a Pessoa Idosa. O estudo completo, com mapas e análises em  227 páginas, foi entregue à Administração Municipal em uma cerimônia realizada em 1 de outubro, Dia do Idoso.

Com base nesses dados, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos avalia que terá subsídios fundamentais para desenvolver políticas públicas mais específicas aos idosos nas diversas regiões, “promovendo assim a sustentabilidade social no município”.  “O estudo identificou vários núcleos socialmente vulneráveis no município e será de grande importância para a criação de mais e melhores políticas públicas para a população com mais de 60 anos em Campinas”, disse a secretária da Assistência, Vandecleya Moro. O estudo completo pode ser conferido em  https://bit.ly/diagnosticoidosodecampinas.

Atualmente, nos casos de idosos em situação vulnerável a rede da Assistência mantém atendimentos via Centros de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistências Social (Creas) e Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), além do POP Rua, para aqueles em situação de rua.

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