Com o olhar no futuro, Academia Campinense de Letras faz 65 anos

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A Academia Campinense de Letras em foto de 2009 (Foto: Wikimedia Commons)

A Academia Campinense de Letras (ACL) completa 65 anos de fundação nesta segunda-feira (17). Voltada à promoção e preservação da língua e literatura brasileiras, a entidade ocupa desde 1976 um prédio que, construído nos moldes dos antigos templos gregos, ao mesmo tempo que se destaca na paisagem urbana da região central da cidade, se fundiu a ela. É, enfim, parte do cotidiano dos campineiros, ainda que muitos deles lá nunca tenham colocado os pés.

O aniversário desse patrimônio da cidade, no entanto, não vai contar com eventos comemorativos – pelo menos não os presenciais, como as sessões solenes, concertos e palestras que pontuavam o calendário da academia em tempos pré-pandêmicos. “Somos todos do grupo de risco”, afirma o presidente, o advogado, escritor e historiador Jorge Alves de Lima, em referência à faixa etária dos 40 membros da academia, que os tornaria mais suscetíveis a complicações em um eventual contágio pelo novo coronavírus.

E uma vez que os tempos obrigaram à suspensão das atividades acadêmicas, Lima dedicou seu tempo e energia à preservação do espaço – tombado pelo Condepacc (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas) em 2019. “Temos trabalhado na manutenção e zelo do prédio”, conta. A rigor, as obras começaram quando o acadêmico assumiu o primeiro mandato – de dois anos – no começo de 2019. E havia questões urgentes para resolver. “Logo no primeiro dia, era época de chuvas, tinha uma cachoeira no salão principal”, recorda.

Havia também a lembrança do então recente incêndio que atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro de 2018 (provocado por um curto-circuito no ar condicionado). Para exorcizar o fantasma de tragédia semelhante, Lima mandou renovar as instalações elétricas. As calhas também passaram por reforma. E, para se ter controle do acesso de pessoas ao prédio, foi instalado um portão eletrônico, equipamento doado por meio de parceria com o Sindicato dos Ferroviários da Zona Mogiana e a Loja Maçônica de Campinas. A ACL também se beneficiou de ação da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), que doou o equivalente a R$ 100 mil, segundo o presidente, em obras hidráulicas.

Outra conquista da entidade foi a obtenção de um documento de vistoria emitido pelo Corpo de Bombeiros que atesta que as instalações do prédio atendem às normas de segurança. Além disso, o espaço ganhou nova iluminação que, segundo o presidente, valorizou o prédio e rendeu elogios da vizinhança.

Lima, que está no segundo mandato, que vai até 2022, afirma que está empenhado em conseguir um local adequado para servir como biblioteca da entidade. Atualmente, os cerca de 8 mil exemplares de livros, revistas e outros periódicos do acervo da academia estão armazenados no sindicato dos ferroviários. O acadêmico conta que uma solução para isso seria a construção de um espaço que sirva tanto de biblioteca da ACL quanto sede do Arquivo Municipal de Campinas. “Existem umas casinhas antigas na vizinhança da ACL (nas ruas Rio Branco e Marechal Deodoro). A ideia é conseguir que a Prefeitura desaproprie aquela parte, construa a sede do Arquivo Municipal, que não tem local próprio, e ceda um espaço para a biblioteca da academia”, explica Lima. Tal projeto seria uma alternativa à adaptação do sótão do prédio da entidade para abrigar os exemplares. A execução dessa obra demandaria, claro, estudos de engenharia para determinar sua viabilidade estrutural.

Fora da redoma

A preocupação em não ser uma entidade elitista, à parte das demandas da sociedade, levou a academia a promover encontros periódicos com alunos de escolas municipais da periferia de Campinas. As sessões (ora suspensas), realizadas na sede da ACL, contam com a presença de 80 estudantes, que assistem a declamações de poesia, concertos e palestras. Ao final, os jovens levam de presente uma sacola com livros, obtidos em parceria com a Livraria Pontes, tradicional estabelecimento campineiro. “São incrementos culturais para a juventude”, define Lima. “Sugeri ao presidente da Academia Brasileira de Letras (o escritor, poeta e ensaísta Marco Lucchesi) que fizesse o mesmo. A academia não pode ser uma redoma de vidro. Tem que ser instrumento de cultura para a população”.

As reuniões com os jovens estudantes, assim como as atividades da ACL, serão retomadas em uma data ainda indefinida, quando também, espera o presidente, será realizada uma comemoração à altura. “Quando voltar à normalidade, vamos ter uma festa”.

Enfim, uma sede

A Academia Campinense de Letras foi fundada em 1956 pelo linguista Francisco Ribeiro Sampaio, que foi o primeiro presidente da entidade. Sem sede própria, as reuniões ocorriam, como afirma em artigo o historiador e membro da ACL Duílio Battistoni Filho, “em salas minúsculas, acanhadas, sem o mínimo conforto”. Segundo ele, em sessão realizada em 20 de abril de 1974, o então prefeito Lauro Péricles estava presente e, sabendo da inexistência de um local próprio, anunciou que faria a doação de um terreno para a construção de uma sede. “Prometeu e não parou na promessa”, lembra o historiador. “Surpreendeu os próprios acadêmicos com a notícia de que o terreno já estava escolhido e que os primeiros ‘riscos’ da obra já haviam sido esboçados por seu próprio punho: um magnífico projeto de edifício em estilo dórico”, recorda o acadêmico.

A sede, erguida pela construtora Lix da Cunha, foi inaugurada em 16 de maio de 1976, com solenidade que contou com a presença, entre outros, do ensaísta Viana Moog, da ABL. Battistoni Filho registra que Moog demonstrou surpresa pelas linhas em estilo grego do novo prédio da entidade, “mas mais surpreso ainda ao ver a festa presidida por dois gregos: um Lycurgo e um Péricles”. Brincava com a semelhança dos nomes de Lauro Péricles e do acadêmico Lycurgo de Castro Santos Filho, da ACL, com os dos personagens da antiguidade.

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