Em ‘reconstrução’, Convivência deve voltar à cena em três anos

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Fotos: Matheus Pereira

Cercado por um canteiro de obras, o complexo do Centro de Convivência Cultural (CCC) de Campinas, no Cambuí, passa por uma transformação invisível aos olhos da população, mas que pode ser definida como uma verdadeira reconstrução interna do prédio histórico – inaugurado há 45 anos, e tombado como bem cultural de interesse histórico, artístico e arquitetônico em 2017.

Como é oficialmente um patrimônio da cidade, por lei as características originais do imóvel central e do teatro de arena serão mantidas, porém, para quem tem a possibilidade de percorrer a obra, e principalmente a área do teatro interno, a impressão é de que quase tudo recomeçou do zero. “Basicamente, ficará a casca externa”, afirma o secretário de Infraestrutura, Carlos José Barreiro.

Será um processo caro e com previsão de durar ainda cerca de três anos, até a liberação total para a população. Uma espera que, se cumpridos os prazos previstos, chegará a 13 anos desde que o CCC foi interditado com sérios problemas estruturais, em 2011. Em seus últimos anos aberto a atividades, as reclamações de goteiras nos banheiros, camarins e até no palco eram frequentes entre a classe artística. A parte elétrica também exibia uma série de problemas.

“Chamaria o que vimos no início dos trabalhos (no ano passado, nove anos após a interdição) de casa dos horrores. Eram morcegos, escorpiões pelos cantos, baratas embaixo do palco. O próprio palco estava deteriorado, afundando ao pisar”, conta o engenheiro da Secretaria de Infraestrutura e responsável pela reforma, Cláudio Natal Orlandi. “Se esse prédio ficasse assim por mais um tempo, creio que sua estrutura começaria a correr riscos. Foi uma intervenção iniciada em tempo”, reforça.

Agora, por enquanto, não há mais palco, mobiliário ou o enorme lustre que enfeitava o saguão. Nas paredes das galerias e do teatro interno, na área reservada ao público e nas salas de camarins e ensaios, o visual é de concreto, cimento e argamassa, conforme verificou “in loco” a reportagem do Diário Campineiro/RadarC, na última terça-feira (5).

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Teatro interno, que terá pequenas mudanças na configuração de área do público, ampliação do fosso e novo palco

Segundo o engenheiro, no atual estágio da obra, a parte estrutural está sendo recuperada. Novos camarins e salas administrativas estão sendo abertas e pequenas reconfigurações executadas, entre elas o aumento do fosso da Orquestra, para uso durante peças musicais. Ele passará de 88 metros quadrados para cerca de 120 metros quadrados, e haverá recuperação e melhorias no elevador que desce os instrumentos, além da sala de ensaio dos músicos.

“Haverá também um novo tratamento acústico nessa área de ensaio, afinal aqui será a nova casa da Orquestra”, diz. Já o espaço para o público será de 500 lugares, 30 a menos que a capacidade anterior – ao invés de um corredor central entre os assentos, como era anteriormente, serão feitos corredores laterais.  

Outra novidade é a construção de rampas em todos os três pavimentos, criando um sistema de acessibilidade antes inexistente. Varas eletrificadas, e não mais manuais, serão usadas para as cortinas. As estruturas elétrica e hidráulica também começam a ganhar um novo sistema. Ao longo do teatro, por exemplo, já é possível observar parte das canaletas por onde vai passar a nova fiação.

Do lado de fora, a estrutura do Teatro de Arena está sendo lixada e lavada com água retirada do subsolo da própria edificação, como preparação para impermeabilizar a construção – a promessa é resolver o problema das goteiras que sempre perseguiu o teatro do CCC. Orlandi diz ainda que está sendo dado um novo tratamento às juntas da construção externa, também como parte da solução das infiltrações, e sendo recuperado o sistema de drenagem, que estava parcialmente danificado.

Para a lavagem, são usados de 3 a 5 mil litros de água de reúso do local por dia. A intenção, após terminada essa fase, é que o sistema de reúso seja aproveitado para ações de limpeza do Departamento de Parques e Jardins.

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Operário trabalha no lixamento da superfície do Teatro de Arena, que receberá polímero para impermeabilização

Cronograma

Segundo o secretário Barreiro, as ações em curso integram a primeira fase de obras no complexo cultural, a um custo licitado de R$ 20 milhões, com recursos captados de um convênio com o governo do Estado, e a previsão de entrega desta etapa é outubro de 2022. As obras foram iniciadas há um ano.

“É um orçamento relativamente alto, pois nesta fase está sendo feita toda a infraestrutura da edificação, parte interna, revestimento, piso, sistemas hidráulico e elétrico. E também será corrigido o grande problema que levou à interdição, ou seja, as infiltrações que destruíram o teatro. Toda arquibancada externa, na área exposta ao tempo, receberá o tratamento de um polímero importado da Alemanha, criando uma camada de impermeabilização que vai resolver esse problema”, promete o secretário.

O projeto prevê ainda que a segunda etapa irá custar mais R$ 25 milhões, um recurso que estaria prometido pelo Estado desde o ano passado. Essa fase, porém, só terá concorrência aberta para escolha da empresa responsável ao final da primeira, no ano que vem, e então o governo irá solicitar a verba, contando com a palavra do governo estadual. “É uma etapa que tem mais a ver com o teatro interno. Haverá modernização do palco, luminotécnica, som, parte eletrônica, cortinas. Será mais arte que engenharia”, diz. 

Garantidas a verba e nova licitação, haverá um novo prazo estimado entre um ano e meio a dois anos para que o complexo cultural do Convivência volte a fazer parte do cotidiano do campineiro –  e se cumprida a expectativa do governo, preparado para abrigar grandes espetáculos, como musicais e óperas. A ideia é que a parte interna mantenha toda estrutura anterior conhecida pela população, com teatro, área para exposições e também o espaço onde ficava o café La Recoleta, que poderá ser reservado para o mesmo fim. 

Mesmo sem uso cultural até o final das duas etapas necessárias, o secretário considera que a partir da “primeira entrega”, em 2022, o local poderá ao menos receber visitas da população. O engenheiro Cláudio Orlandi, por sua vez, diz que ainda está indefinida alguma liberação parcial, mas considera que para o andamento da obra será difícil permitir a circulação, por exemplo, no Arena, enquanto embaixo, na parte interna, operários seguem em obras. Outra dificuldade para uma liberação antes das duas etapas seria a instalação do canteiro de obras, que ocupa grande espaço com materiais de construção.

História e números

O Centro de Convivência Cultural de Campinas foi inaugurado em 9 de setembro de 1976 na Praça Imprensa Fluminense e tem projeto original do arquiteto Fábio Penteado. A área total é de cerca de 6 mil metros quadrados, sendo 4 mil de área externa e 2 mil de área interna. O Teatro de Arena tem capacidade para 3 mil pessoas.

A área interna original contava com saguão, seis salas (de espetáculo, de ensaio, técnica e administrativa), o Teatro Luís Otávio Burnier, com 530 lugares (homenagem ao ator e diretor de teatro campineiro), quatro galerias, oito camarins e banheiros. Após as obras, haverá mais dois camarins e pelo menos mais uma nova sala administrativa para abrigar dois grandes pianos de cauda e um de meia cauda em posse da Secretaria de Cultura. 

Desde a inauguração, o teatro e o anfiteatro nunca passaram por uma reforma completa e estrutural, de acordo com a Administração municipal. O complexo está interditado desde 14 de dezembro de 2011, tendo sido reaberto parcialmente apenas no início de 2012 para a Campanha de Popularização do Teatro, voltando a fechar imediatamente após o festival. A empresa que venceu a licitação para a primeira fase da revitalização é a construtora Progredior Ltda. O projeto de recuperação foi elaborado pela empresa Falcão Bauer.

O que prevê a reforma

Primeira etapa:

Novo sistema de drenagem

Eliminação de infiltrações, de fissuras e reparos na estrutura de concreto armado

Nova impermeabilização e substituição completa das redes elétrica e hidráulica

Adequações para acessibilidade e para atender às normas de segurança do corpo de bombeiros

Segunda etapa

Modernização dos equipamentos da área cênica, de iluminação e de acústica do teatro interno

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