Aumenta mortalidade por câncer de mama em pretas e pardas

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Professora e autora da pesquisa, Diama Vale, alerta para a prevenção da doença ( Foto: Néder Piagentini/Caism-Unicamp)

Estudo desenvolvido por pesquisadores do Caism – Hospital da Mulher José Aristodemo Pinotti da Unicamp, e publicado pela revista médica BMC Cancer, indica uma tendência de aumento na taxa de mortalidade por câncer de mama em mulheres pretas e pardas, e de redução em mulheres brancas aponta trabalho. No Brasil,entre 1980 e 2009 houve queda nas taxas da mortalidade e geral no Sudeste, e aumento no Nordeste.

A professora Diama Vale, autora principal do “Estudo sobre as disparidades raciais na mortalidade por câncer de mama de 2000 a 2017, em São Paulo: uma retrospectiva de base populacional” avalia que esse resultado indica que, provavelmente, as melhorias observadas no diagnóstico e no tratamento de câncer de mama no período só estão sendo percebidas pelas mulheres brancas.

Na opinião da pesquisadora do Caism, há uma desigualdade no acesso às políticas de controle de câncer em função da raça. “Nossa pesquisa não estudou esses casos, mas já foi demonstrado que as mulheres pretas são diagnosticadas com tumores mais avançados. Isso porque o sistema de saúde não está acolhendo corretamente as mulheres sintomáticas para realizar o diagnóstico precoce. Esse problema antecede à necessidade de mamografia para o rastreamento. E mesmo quando são diagnosticadas, as mulheres pretas percorrem um caminho maior e mais penoso do que as brancas para iniciar o tratamento, seja no SUS ou no sistema privado.”

Para Diama Vale, o racismo estrutural pode dificultar o acesso aos serviços de saúde e comprometer a qualidade do atendimento. “Esta população tem um maior grau de analfabetismo, menor renda, usa menos serviços de saúde e dependente mais do sistema. Elas também têm expectativa de vida mais baixa e taxas de mortalidade maior devido a causas externas, como uso de medicamentos e homicídio. As taxas de reconstrução mamárias, por exemplo, são maiores entre as mulheres brancas.”

A professora da Unicamp aponta que mulheres pretas e pardas apresentam certa pré-disposição genética ao câncer de mama, com maior frequência de tumores mais agressivos. “Mesmo quando esses tumores mais agressivos acontecem em mulheres brancas, as mulheres pretas apresentam maior atraso no diagnóstico e no início de tratamento, o que eleva a mortalidade. Mas como esses tumores não são os mais frequentes, esta predisposição teria um impacto pequeno, que não explicaria todas as disparidades observadas.”

Também foi investigado se as piores taxas poderiam ser atribuídas a melhorias na qualidade do registro, nas certidões de óbito ou a quedas em outras causas significativas para a população vulnerável, como causas “externas” ou violentas, o que não foi confirmado. As faixas etárias também foram analisadas para identificar as diferenças mais significativas. “Esperamos que nosso estudo possa apoiar o planejamento de políticas públicas específicas para o controle global do câncer nas mulheres negras. Esse desequilíbrio é reflexo do racismo institucional que tentamos combater. Além de imoral, essas desigualdades geram um custo importante para a sociedade, pois cuidar de câncer é uma atividade muito complexa.”

Tendência Mundial

O câncer de mama é a principal neoplasia entre as mulheres no Brasil e no mundo, representando anualmente cerca de 56 novos casos e 13 mortes por 100.000 mulheres brasileiras. É um problema de saúde pública relevante devido ao número de vidas afetadas, o impacto nos potenciais anos de vida perdidos e do diagnóstico e tratamento no sistema de saúde.

A incidência de câncer de mama está aumentando em todo o mundo, em função de melhorias socioeconômicas, que favorecem mudanças nos hábitos femininos, com aumento de fatores de risco, como terapias hormonais pós-menopáusicas e obesidade. O uso generalizado de mamografia para detecção de cânceres colabora para uma maior notificação dos casos.

Nos últimos anos, as taxas de mortalidade por câncer de mama diminuíram em países de alta renda, mas aumentaram em países de baixa e média renda. A mortalidade é fortemente influenciada pelo estágio do diagnóstico e pelo tratamento. O estágio do diagnóstico, por sua vez, varia conforme o acesso e a adesão das mulheres a programas de diagnóstico precoce. Quando aplicada sistematicamente à população-alvo, a mamografia pode reduzir a mortalidade.

Na América do Sul e no Caribe, a razão entre mortalidade e incidência é mais significativa do que na Europa e América do Norte. Na América Latina, 41% das mulheres são diagnosticadas nos estágios III e IV, aumentando a incidência e a mortalidade.

No Brasil, um país com desigualdades regionais significativas, entre 1980 e 2009 houve redução de taxas da mortalidade no Sudeste, e aumento no Nordeste. De 2001 a 2011, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) influenciou significativamente na variação da mortalidade entre os estados brasileiros. Diferenças socioeconômicas podem explicar essas evidências. Pretos e pardos correspondem a 55% da população brasileira e representam os estratos economicamente desfavorecidos.

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