Maternidade faz 108 anos com mais de 500 mil partos e busca por ‘sustentabilidade’

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Foto: Weverson Felipe

O Hospital Maternidade de Campinas completa 108 anos de portas abertas nesta terça-feira (12) reunindo números impressionantes e novas metas para se manter “sustentável”.

Segundo documentos arquivados na instituição, mais de meio milhão de crianças nasceram no hospital apenas nos últimos 63 anos. Apesar de ter sido fundada em 1913, os registros de nascimentos no local estão documentados a partir de 1958 até setembro de 2021. Estão computados nesse período 524.454 nascimentos, dos quais 54,8% atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e 45,2% pela Saúde Suplementar (convênios) e particulares, conforme levantamento feito pela gestora do SUS, Carla Trigo. Hoje, são cerca de 9 mil nascimentos por ano.

A instituição ressalta que há alguns anos transformou-se em hospital para diversificar e ampliar o seu atendimento para outras cirurgias (plásticas, bariátricas, oncológicas, urológicas e de otorrino, entre outras), “medida necessária para manter a filantropia em ginecologia e obstetrícia”. Por mês, são realizadas cerca de 1,9 mil internações e, aproximadamente, 750 partos.

Esse número representa, praticamente, a metade de todos os nascimentos ocorridos na Região Metropolitana de Campinas (RMC).  Dos 40 leitos de sua Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal, 22 são oferecidos para a rede pública. O hospital registra, em média, 930 atendimentos em UTI Neonatal por ano.

Seu corpo clínico conta com 642 médicos e 910 colaboradores. “O Centro de Lactação Banco de Leite Humano é referência Padrão Ouro e o hospital apresenta o menor índice de mortalidade dentro da UTI Neonatal. A baixa taxa de infecção é comparável aos melhores hospitais do mundo”, diz a direção da unidade.

“Essa longevidade do hospital permite à instituição unir o seu know how na área da Saúde e o conhecimento do corpo técnico e clínico às novas tecnologias para se tornar cada vez mais sustentável, inclusive financeiramente”, diz o presidente da unidade, Marcos Miele. Como exemplos, ele destaca a implantação do PPP (pré, parto e pós-parto), em 2019 – com acessórios como bola, espaldar, banqueta, cavalinho e incubadora -, e da banheira descartável para as gestantes que apresentem condições clínicas para a realização do parto normal. Também ressalta a conclusão de sua usina solar fotovoltaica, doada pela CPFL Paulista, este ano, que garantirá uma economia de 10,76% por mês no consumo de energia elétrica.

Dentre os novos projetos estão a ampliação do serviço de imagem no atendimento ambulatorial, em ginecologia e no centro cirúrgico. “Mantemos firmes os propósitos filantrópicos do Hospital Maternidade de Campinas na assistência materno-infantil apesar da crise financeira agravada pela pandemia da Covid-19. Esse hospital é parte da vida da cidade”, afirma Miele.

Três gerações

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Andrea com a filha Beatriz e o neto Gabriel Foto: Divulgação

As famílias de Andrea Azevedo, Camila Dias Guedes Lopes e Ana Maria Melo Negrão são exemplos de gerações que compartilham o nascimento na Maternidade. Andrea, de 54 anos, servidora pública do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e voluntária no Coletivo “Mulher pela Justiça”, nasceu na unidade em 1967. Seus filhos Raphael (1984) e Beatriz (1992) também. Em 2014, chegou Helena, filha do Raphael, e, em 2021, nasceu outro neto, o Gabriel, filho da Beatriz.

“Tive o Raphael aos 16 anos de idade. Faltavam 15 dias para eu completar 17. O parto estava agendado para 26 de abril, mas ele antecipou quatro dias e nasceu no dia 22, um domingo de Páscoa. Como eu era muito nova, não tive nem a oportunidade de escolher o hospital, e foi minha mãe quem me levou para a Maternidade, porque fiz pré-natal com um ginecologista de lá. No caso dos meus filhos, a opção pela Maternidade foi pela referência que já tínhamos do hospital. O parto da Beatriz foi preocupante, pois ela teve trombose. Mas tínhamos confiança na equipe”, conta.

Camila Lopes é a segunda desta geração de mulheres também nascidas no Hospital Maternidade de Campinas. A mãe dela, Alessandra Pereira Dias, nasceu na instituição em 1972 e, em 1990, foi a vez de Camila. Por sua escolha, as duas filhas, Isabella (2013) e Valentina (2016), também nasceram no local. Sua avó veio de Ribeirão Preto e já vinha realizando todo o acompanhamento pré-natal pelo SUS, tendo sido encaminhada à Maternidade para dar à luz. No seu caso, apesar de contar com convênio médico, ampliando a oportunidade de escolha, ela optou pela Maternidade pela referência familiar.

“Optei, inclusive, pelo parto com plantonista. O acolhimento dos médicos e enfermeiras, inclusive com os esclarecimentos sobre os meus direitos – como ter o acompanhamento do meu marido no parto e, depois, dos bebês já saírem do hospital com todos os testes realizados – foram essenciais”, diz.

Ana Negrão também faz parte de três gerações nascidas na unidade. Ela nasceu em 1941, no antigo prédio da Avenida Andrade Neves. A mãe dela, Ana Luiza, contava que, naquele tempo, era assistida por parteira, pois o médico somente era acionado em caso de complicações. Nos partos normais não havia anestesia e a parturiente fazia força puxando firmemente duas faixas de tecido grosso que ficavam amarradas à cama.

Já os filhos de Ana Maria nasceram no prédio novo, na Avenida Orosimbo Maia: Paulo César, em 1969, Flávia, em 1971, e Ângela, em 1975. “Eu fui assistida por médicos. Pelo dr. Aristodemo Pinotti no primeiro parto, e pelo dr. Gilberto Azenha nos demais. Todos os meus partos foram normais”, ressalta. Seus netos também nasceram no hospital: Luiza, em 2004, filha da Ângela, e Bárbara, em 2006, filha de Paulo César.

Médicos

Três médicos – dois ginecologistas e obstetras e um pediatra, que atuam na Maternidade há mais de 50 anos – relatam suas experiências e as transformações pelas quais o hospital e as áreas materno-infantil da Saúde passaram nesse período.

Antonio Carlos Ferreira Menegazzo e Walter Passarella Barbosa, ginecologistas e obstetras, graduaram-se em Medicina em 1967 e ingressaram como residentes no Hospital Maternidade de Campinas em 1968. Um ano depois, já faziam parte do corpo clínico da instituição. “Éramos nós dois, apenas, nos plantões realizados em dias alternados”, recorda-se Menegazzo. Hoje, aos 80 anos de idade, diz ter “tirado o pé” do trabalho, mas continua na ativa, atendendo em seu consultório, realizando partos pré-agendados e firme nos plantões semanais do hospital.

“A Maternidade mudou muito. Antigamente, as parteiras faziam todo o trabalho e o médico somente era chamado quando havia alguma complicação. Hoje, temos a grande responsabilidade, inclusive jurídica, para a maior segurança das pacientes. O hospital evoluiu, mas sempre primou pela boa qualidade e com excelentes profissionais que foram se modernizando ao longo dos anos e se adaptando às novas tecnologias e à nova realidade. Hoje, o hospital está bem completo. Éramos apenas dois plantonistas e, hoje, formamos uma equipe de 47 profissionais”, compara.

Apesar dos mais de 50 anos ajudando nos nascimentos, Menegazzo ainda diz ficar ansioso e não ver a hora em que a criança nasce para conferir se ela está em perfeitas condições de saúde. “É uma alegria enorme a cada criança que nasce”, diz. A aposentadoria não está nos seus planos. “Não sei fazer outra coisa. Desde 1967 minha missão tem sido servir ao próximo e trazer crianças ao mundo. Enquanto a cabeça estiver ajudando, continuarei com meu trabalho”, garante.

O obstetra Walter Passarella Barbosa recorda-se da época em que as gestantes eram atendidas em espaço mais reduzido, apenas no primeiro e segundo andares ocupados pela Faculdade de Medicina da Unicamp. Ao longo destes anos, o hospital passou por reformas e modernizou-se em vários aspectos, estendendo sua atuação para outras especialidades. “Mas, acredito que os investimentos no Centro Obstétrico têm uma importância infinita”, diz.

Aos 81 anos de idade, dos quais 54 dedicados ao hospital, acrescenta: “Não tenho ideia do número de partos que realizei. Perdi a conta”. Seu amor à obstetrícia, à Maternidade e ao relacionamento prazeroso, principalmente, com os colegas da equipe de plantão o mantém ativo e orgulhoso de seu trabalho.

O pediatra Aries Alves Borges, também aos 81 anos de idade, nem pensa em deixar de cuidar dos recém-nascidos do hospital. Foi ideia dele, há anos, a criação de um “Manual de Instruções” entregue até hoje para as mães, trazendo instruções sobre amamentação (horários, pega correta e excesso de leite), sobre icterícia, alta hospitalar, registro de nascimento, além de dicas sobre os cuidados necessários até o primeiro ano de vida. “Minha filha ajudou com os textos e fez um lembrete: você já está preparada para ser uma boa mãe há muito tempo. Haja naturalmente e, qualquer dúvida, nos procure”.

Um dos grandes avanços, na opinião de Borges, foi a transformação dos “berçários coletivos” para o “alojamento conjunto”, permitindo que mães e bebês pudessem estar juntos desde o momento do nascimento. A visão da “cria” traz muitos benefícios tanto para as mães quanto para os bebês, inclusive para o estímulo à produção de leite.

Um fato que o marcou ao longo deste tempo foi há uns 15 anos, quando do nascimento de um bebê com síndrome de Down, não observado no momento do parto, somente depois no berçário. Para dar a notícia, Aries adotou a estratégia de levar o bebê até a mãe e colocá-lo em seus braços, para que ela pudesse, primeiro, sentir a criança.  Passou, então, a conversar com ela, pedindo que reparasse, primeiro, em seus olhinhos “puxados”, depois nos dedinhos mais curtos e, por fim, na prega palmar única, sinais comuns num bebê com síndrome de Down. Somente então deu o diagnóstico. “A aceitação da mãe foi imediata: ele é meu filho. Eu vou cuidar dele”, recorda-se. “É a importância do contato para o reconhecimento da maternidade. Esse foi um dos grandes avanços em todas essas décadas”, complementa.

História

A Maternidade de Campinas nasceu em 12 de outubro de 1913 pela necessidade de se ter um hospital que atendesse às mães carentes. Foi o primeiro hospital de Campinas com condições de oferecer às mulheres o apoio e o cuidado necessários no momento do parto. Quando da sua criação, era definida como “instituição inteiramente de beneficência, destinada a prestar gratuitamente socorro, tratamento e assistência a gestantes e parturientes reconhecidamente pobres”. Era composta por um número ilimitado de sócios.

Os primeiros prédios, que funcionam desde 1916 e 1965, respectivamente, foram construídos com a ajuda da população, motivada pela vontade de ter uma maternidade de referência na cidade. São 108 anos de portas abertas, 24 horas por dia.

O primeiro prédio funcionou na Avenida Andrade Neves. A decisão de construir uma nova edificação aconteceu em 1950, mas a nova Maternidade, na Avenida Orosimbo Maia, somente foi inaugurada 15 anos depois (em 19 de dezembro de 1965). Desde então, já sofreu várias reformas e ampliações.

Filantropia

O hospital diz que, para manter sua filantropia, depende da soma dos repasses do SUS, da saúde suplementar (convênios) e dos atendimentos particulares. No entanto, com a pandemia da Covid-19, não está sendo possível compor as receitas e fazer frente às despesas crescentes. Por isso, a instituição tem solicitado a ajuda da comunidade e também contado com as doações voluntárias feitas por cerca de 200 médicos associados. A diretoria exerce trabalho voluntário na administração, sem salário.

A unidade, agora, pretende aproveitar a comemoração do aniversário para incrementar a arrecadação por meio das Notas Fiscais Paulistas e para promover a segunda edição da Campanha Chá de Bebê, que visa a buscar doações para as mães e bebês atendidos pelo SUS.

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