Na volta à escola, o mais importante não é aprender

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Foto: Prefeitura de Campinas

O retorno às aulas presenciais nas escolas, sejam públicas ou particulares, depois de uma pandemia, é algo com que ninguém – nem alunos, nem professores – já se deparou antes. Não apenas pelo longo período de ausência, mas também por causa dos efeitos que ela causou no lado emocional de todos.

É uma situação completamente nova, e vai ser preciso considerar muitos fatores para que não só o retorno ocorra de forma tranquila, mas também garantindo que a retomada das atividades seja feita de uma maneira que permita recuperar o tempo perdido sem atropelos nem pressões excessivas.

Para falar sobre esse assunto, que preocupa pais e professores, o RadarC ouviu com exclusividade Ismael Rocha, doutor em Educação e diretor acadêmico do Institute of Technology and Education (Iteduc). Confira os principais momentos da entrevista.

A volta às aulas presenciais nas escolas é um tema que ainda não foi bem definido em termos de acolhimento aos alunos. O que o senhor acha que precisa ser considerado em primeiro lugar?

Acho que a primeira coisa que se deve ter em mente é que este retorno está diretamente ligado a questões sócio-emocionais dos estudante. Temos que ter em mente que eles não estão voltando de férias, de um período em que se divertiram, viajaram, conheceram coisas novas, se relacionaram com seus colegas e fizeram novos amigos. É exatamente o oposto: foi um longo período de privação de praticamente tudo. Eles ficaram presos em casa, sem conviver com seus amigos e amigas, por muito tempo. E isso teve um impacto muito grande sobre eles, que precisa ser levado em conta nesse retorno. As emoções positivas que eles vinham desenvolvendo foram profundamente abaladas. E o aspecto emocional é muito importante. Essas crianças, esses jovens, ficaram expostos ao medo, e ainda o sentem, até porque estão voltando para uma situação nova, tanto para eles quanto para seus professores. Perderam-se as referências anteriores, e será preciso construir novas. Neste momento inicial, tudo é incerto, tudo é dúvida. Por exemplo: como será a relação com os antigos colegas? Será que vão mudar? E com os professores? Como serão feitas as provas daqui para frente? Essas questões ainda não têm respostas claras – e tudo o que não se conhece provoca ansiedade, e mais ansiedade é o que devemos evitar a todo custo. Daí a importância de se ter boas práticas de acolhimento, justamente para diminuir estes aspectos.

E qual seria o acolhimento correto?

Neste momento, o acolhimento deve priorizar muito mais o lado sócio-emocional dos alunos do que se preocupar com a questão de conteúdo educacional, que pode ser pensada um pouco mais para frente. Essas crianças e jovens lotaram os consultórios dos psicólogos durante o período em que ficaram isoladas, e não devemos relevar os problemas pelos quais passaram. Não podemos estender esses problemas, trazê-los para dentro das escolas. Então, especialmente no caso das crianças, o acolhimento deve ser focado agora apenas em atividades lúdicas. O aprendizado vai ter que esperar um pouco para ser retomado. Para mim, se uma criança chegar em casa, for perguntada sobre o que aprendeu naquele dia e responder que não aprendeu nada, apenas brincou, então sua escola estará no caminho certo. E os pais precisam ter isso em mente também: não é o momento de cobrar nada, nem da criança e nem da escola. Se ela passou o dia brincando com os coleguinhas, tanto melhor – é assim que ela vai se ressocializar, reaprender a se relacionar com os outros. 

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O profesor Ismael Rocha: Não é o momento de cobrar nada. Se a criança passou o dia brincando, tanto melhor – é assim que ela vai se ressocializar, reaprender a se relacionar com os outros” (Foto: Divulgação)

As crianças foram as que sofreram mais os impactos do isolamento?

Elas foram especialmente atingidas, porque estão numa fase da vida que é de descobertas. Os adolescentes também estão, mas num nível bem diferente. Para uma criança, todo dia traz uma descoberta. Tudo é novidade, tudo as encanta. E fazem isso ao lado dos coleguinhas. Isso de repente foi tirado delas. De uma hora para outra elas tiveram que ficar isoladas em casa, sem esse contato essencial. Suas referências mais básicas foram retiradas. Elas deixaram de ser seres sociais. Agora imagine o impacto disso sobre elas. Claro que os jovens e adolescentes também sofreram imensamente com isso, mas eles têm um pouco mais de compreensão das coisas. O isolamento social foi muito duro para todos nós, independente da idade – mas as crianças, certamente, sofreram um impacto maior. 

No caso delas, então, o acolhimento deve merecer uma atenção especial? 

Como eu já ressaltei, ele deve ser baseado no lúdico, que é um aspecto absolutamente importante na construção mental dessas crianças. O nosso cérebro tem uma certa plasticidade – ele se ajusta, se modifica a cada impulso que recebe. Há um lado lógico e um lado criativo – e eles devem ser alimentados de forma equilibrada. Se priorizarmos apenas o lado lógico, o do aprendizado, do estudo, e não fizermos o mesmo com o lado lúdico, que é o artístico, dos sonhos e dos sentimentos, estaremos criando pessoas que terão muitas dificuldades na vida. O lúdico tem a ver com a felicidade futura. Então é importante priorizar isso neste momento. Rodas de conversa, com as crianças falando sobre o que fizeram nesse longo período em que ficaram em casa, passeios pela escola para rever como era o patio, o jardim e as áreas comuns, ir até uma praça para brincar – essas são as atividades mais essenciais agora, e não os livros.

Durante a pandemia, uma das poucas alternativas que restaram foi o ensino remoto. Agora, com o retorno presencial, ele vai ser posto de lado? Ou o ensino híbrido vai continuar?

Eu tenho convicção de que o modelo híbrido vai se firmar. É algo que veio para ficar, porque abre as portas para o melhor de dois mundos – o presencial e o virtual. Em países onde a educação está em patamares mais avançados que o Brasil, esse sistema já era adotado há algum tempo. E com resultados notáveis, como mostram diversas pesquisas feitas por grandes universidades americanas. O problema é que ele só chegou aqui por causa da pandemia. Até março do ano passado, nosso ensino era aquele idealizado no século 20: o professor na frente, os alunos sentados. Isso não serve mais. Precisamos evoluir – e nesse aspecto a pandemia foi um enorme empurrão. Agora, para o ensino híbrido ser eficiente, é preciso considerar seu aspecto mais importante: o professor. Que, hoje, não tem nenhuma formação para trabalhar com ensino virtual. Não me entenda mal: os professores foram mais do que heróis durante a pandemia. Eles se superaram, foram aos seus limites, fizeram mais do que seria possível esperar que fizessem dadas as condições complicadas que envolvem o ensino on-line no Brasil. Mas fizeram isso sozinhos, por conta própria e sem orientação adequada. O fato é que eles não conhecem o enorme arsenal de ferramentas que podem ser utilizadas para interação, para avaliação, para aprendizado e avaliação. Isso independe da vontade deles – muitos descobriram por si mesmos algumas dessas ferramentas e as utilizaram. Mas é impossível para qualquer um determinar qual delas é a melhor ou a ideal para aquele tipo de aluno e para aquele tipo de conteúdo – isso exige uma capacitação à qual eles nunca tiveram acesso, nem antes, nem durante e, até o momento, nem depois do isolamento social. 

E há como corrigir isso?

Precisamos encontrar uma forma de fazê-lo, ou jamais teremos um ensino híbrido de qualidade. Os cursos de formação dos professores não incluem nada relacionado ao ensino virtual. Eles foram capacitados para trabalhar de forma presencial, e apenas presencial. Portanto, a mudança precisa começar por aí. É preciso incluir o ensino on-line na formação do professor, e oferecer acesso a essa capacitação aos que já se formaram. Eles precisam aprender a criar um novo tipo de relação com seus alunos. Precisam conhecer a fundo esse mundo virtual, que hoje não conhecem ou conhecem apenas superficialmente. Só então poderemos falar num ensino híbrido de qualidade.

Uma das questões que geram dúvidas é a eficácia de uma avaliação feita no modelo híbrido. Há algum motivo para se pensar que ela é menos confiável do que a avaliação tradicional?

Nenhum. O que acontece é que uma confusão, um erro de interpretação, de se achar que o método de avaliação presencial é aplicável numa avaliação virtual. Não é. Existem hoje inúmeras ferramentas de avaliação virtual eficientes, e que usam programas e aplicativos com os quais os alunos estão mais do que habituados a utilizar. Por exemplo: eles podem utilizar o TikTok (um aplicativo que permite produzir pequenos filmes com som) para fazer uma avaliação de história. Ou usar um software de imagens para fotografar casas e prédios e, em cima dessas fotos, trabalhar conceitos de geometria, observando e destacando triângulos, retângulos, quadrados e círculos encontrados nas imagens que capturaram. Então, uma avaliação não precisa ser feita em papel e nem seguir os preceitos de uma prova tradicional. É diferente, sem dúvida, mas perfeitamente eficiente e válida.

Uma questão extremamente complexa é como fazer para recuperar todo esse tempo que foi perdido pelos alunos longe das escolas. Quais seriam as formas de se resolver esse problema? 

Em primeiro lugar, temos que entender que as perdas provocadas com a suspensão das aulas presenciais não serão recuperadas de uma hora para outra. É um processo que levará tempo. Educação não se empilha. Não há como cumprir dois anos de escola em um. O que teremos que buscar é um planejamento eficiente, que garanta ao aluno a possibilidade de aprender na velocidade dele. Tentar acelerar esse processo é um erro, especialmente nos casos do ensino infantil e fundamental. Inevitavelmente, se fizermos isso, deixaremos conteúdos importantes de lado. E me preocupa ver que essa questão não vem sendo abordada com a atenção que exige. Não se trata de um plano deste ou daquele governo: trata-se, ou deveria se tratar, de um plano de Estado, a ser desenvolvido ao longo do tempo de forma constante, pouco importando quem seja o prefeito, o governador ou o presidente. E esse plano tem que ser deixado a cargo de pesquisadores e professores. Do lado prático, algumas alternativas para recuperar o tempo perdido seriam diminuir as férias e colocar aulas aos sábados, por exemplo, para ampliar as horas-aula, aumentando a velocidade do aprendizado dentro do possível. Repito: é um erro apostar na fórmula máximo de conteúdo no mínimo de tempo. Se fizermos isso, vamos fingir que  estamos ensinando e os alunos vão fingir que estão aprendendo.

A esta altura da pandemia, já é um consenso que o Coronavírus não irá desaparecer – ele se tornará endêmico. Não há então um certo exagero em voltar a fechar as escolas toda vez que aparecer um caso da doença, já que, como a gripe comum, a tendência é que isso aconteça com alguma frequência daqui para frente?

Esta é a questão de um milhão de dólares. O fato é que o mundo está vivendo uma realidade que nunca viveu antes. Não há uma resposta para esta pergunta neste momento. O que eu vejo, e me preocupa, é que não existe um grupo de educadores e cientistas trabalhando juntos para traçar caminhos baseados em estudos e fatos comprovados. Aqui também falta uma política de Estado. E sem ela, se tivermos que enfrentar uma outra pandemia, ou mesmo uma eventual piora desta que vivemos, vamos passar de novo e exatamente pelo mesmo caos na educação. Não há qualquer planejamento para o curto ou médio prazo, e isso é profundamente alarmante. Precisamos pensar em como estamos construindo o futuro dos nossos estudantes, dos nossos filhos, de cada brasileiro das próximas gerações, porque eles é que assumirão o nosso lugar. Que tipo de pessoas eles serão, que cuidados receberam de nós, que formação demos a eles – é isso que devemos nos perguntar. E se a resposta não nos tranquilizar, se não for positiva, é nosso trabalho fazer as coisas mudarem.

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