Não tem aula? As mães resolvem

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Foto: Reproduçao

“Quem sabe matemática, ensina matemática. Quem sabe português, ensina nossa língua. Quem tem literatura, repassa o conteúdo e quem não sabe nada de educação, prepara o lanche”. Esse depoimento é da recepcionista Rayane Lélis Pinto, de 27 anos, mãe de Diego, de 9 anos. Ela e outras mães do condomínio onde moram se uniram para mitigar os efeitos da da Covid-19 na educação de seus filhos. Área que apresenta dados alarmantes da desigualdade entre ricos e pobres em período anterior à pandemia e colocam o Brasil entre os piores do mundo, mas um educador da Unicamp traz esperança em meio às comemorações do centenário do patrono maior, Paulo Freire.

De acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que avaliou 79 países em 2018, divulgado este mês, o Brasil é uma das cinco economias mais desiguais do mundo em relação à educação. A desigualdade socioeconômica coloca o País na terceira maior do mundo em ciências e leitura e a quinta, em matemática. Estudantes de maior poder aquisitivo tiveram um resultado de 100 pontos a mais do que os alunos mais pobres. O resultado é indicado por meio de uma prova, elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A cor da pele é um dos principais fatores de desigualdade no País, ao se falar de renda e emprego. De acordo com os últimos dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 98% das crianças entre 6 e 14 anos no Brasil estavam matriculadas no ensino fundamental. Os índices são praticamente os mesmos se separados por matrículas de brancos, de pretos e de pardos: 98%, 98,7% e 97,9%, respectivamente. O acesso equitativo, no entanto, está longe de simbolizar ofertas de oportunidades iguais.

Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2020, da ONG Todos pela Educação, entre os jovens, 58,3% dos pretos e 59,7% dos pardos concluíram o ensino médio até os 19 anos em 2019, ao passo que, entre os brancos, a taxa foi 15 pontos percentuais a mais (75%). A evasão escolar aponta 258 milhões de crianças fora do sistema educacional, dessas, 53% eram jovens que viviam em famílias em um cenário de maior vulnerabilidade, afirma a Unicef.

Apesar do cenário, o professor Maurício Ernica, da Faculdade de Educação da Unicamp, faz uma leitura mais positiva. ” Há melhoras sim na educação do Brasil e elas podem ser notadas a partir da década de 90 com o maior acesso às escolas. O aprendizado médio do Ensino Fundamental 1 subiu. já o Ensino Fundamental 2 aumentou menos e o Ensino Médio, não melhorou”. O educador defende que com a democratização do Brasil a partir dos anos 80, houve um expansão no acesso à educação e que “agora, o Brasil precisa avançar na qualidade do ensino em um ritmo mais acelerado.”

Na avaliação do diretor de Estratégia Política do Todos pela Educação, Lucas Hoogerbrugge, os reflexos da desigualdade ocorrem fora e dentro das salas de aula. “Ainda que, na superfície, as chances possam parecer iguais, com matrícula universal e sem uma política que os discrimine oficialmente, esses jovens sofrem no dia a dia. O racismo estrutural se materializa dentro das salas e eles são tratados com menos expectativas, se veem menos representados em seus professores e pessoas que são modelos de sucesso na sociedade. Portanto, essa trajetória escolar é prejudicada, como os números mostram, seja na permanência, conclusão ou desempenho”, explica no portal da ONG.

De acordo também com especialistas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de 2017, a disparidade se inicia já no Ensino Fundamental. Ao avaliar a aprendizagem adequada de Língua Portuguesa do quinto ano, os índices eram de 41,4% para pretos, 62,5% para pardos e 70% para brancos. No encerramento da etapa, com as avaliações do nono ano, as diferenças apontaram que 51,5% dos brancos apresentavam aprendizagem adequada em Português, frente a um total de 36,3% dos pardos e 28,8%, dos pretos.

Já em Matemática, considerada o vilão para os estudantes, 29,9% dos pretos, 49,2% dos pardos e 59,5% dos brancos tinham aprendizagem adequada no quinto ano e, ao final do Fundamental, os índices ficaram em 12,7%, 17,9% e 32%, respectivamente.

Para o Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, a escola acaba reproduzindo as desigualdades que existem na nossa sociedade. “Esses dados são um reflexo estrutural de uma cultura de exclusão escolar. Os recortes que fazemos para entender esses resultados nos levam a fatores econômicos e escolaridade dos pais, questões estruturais na nossa sociedade que também são aplicadas nas salas de aula”, afirmou em manifesta pela educação divulgado recentemente.

O resultado das desigualdades da cor de pele também reflete no tempo médio de escolaridade. Enquanto para pretos e pardos o somatório de permanência nas escolas é de 11 anos, para brancos é de 12,3 anos. A taxa de analfabetismo entre negros a partir de 15 anos continua sendo mais que o dobro da de brancos: 9,1% contra 3,9%, pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outro fator determinante nas chances de conclusão do Ensino Básico, no País, é a renda familiar da criança e do adolescente. O anuário do Todos pela Educação revela que, enquanto 87,9% dos jovens de 19 anos pertencentes aos domicílios mais ricos haviam completado o ensino médio em 2019, essa proporção foi de apenas 51,2% entre os mais pobres.

Não somente a evasão, mas a qualidade da educação é discrepante ao se comparar os níveis socioeconômicos. Na aprendizagem de Língua Portuguesa, por exemplo, sete em cada 10 estudantes com alto poder aquisitivo apresentaram índices adequados no último ano do ensino médio; a proporção dos que pertencem às classes mais baixas é de dois em cada dez.

Mães e Freire

A força-tarefa das integrantes do movimento “Mães pela Educação”, que se multiplica pelas redes sociais, esbanja uma resiliência digna de participar das comemorações do centenário do Patrono da Educação Paulo Freire.

“Meu filho sempre estudou na rede ~particular de ensino. Ño segundo semestre do ano passado, perdi meu emprego e não tive como mantê-lo. Quando chegamos na escola pública, tivemos um susto com a realidade da estrutura e da dificuldade em ter acesso aso professores. Como eu, estavam mais três vizinhas do condomínio, então começamos a fazer um rodízio de aulas de reforço para cinco crianças em idades entre 8 e 10 anos. Cada dia da semana, uma dava duas horas de reforço de determinado conteúdo”, revela Rayane.

A redução da renda familiar, o estresse do desemprego, a falta de perspectivas e a sobrecarga de trabalhos domésticos foram dribladas pelo poder da Educação. “Sabe que acabamos nos divertindo e criando grupos para visitação on-line de museus e de arte em geral. Uma semana a crianças organizam um vento e no outro somos nós”, revela a guerreira.

Segundo ela, a ação ocorre em áreas abertas do condomínios, seguindo todos os protocolos de segurança sanitária, e garante também às acrianças o mínimo de convivência com os coleguinhas. Rayane planeja matricular seu filho na rede particular em 2022.

Em 19 de setembro de 1921, nascia no Recife Paulo Freire. Patrono da Educação Brasileira, ele é um dos intelectuais mais reconhecidos no mundo. Educador, filósofo, responsável por um consagrado método de alfabetização de adultos e engajado na construção de uma sociedade mais justa, Paulo Freire produziu obras que transcendem sua área e impactam diversos campos do conhecimento.

Concebendo a educação como “prática da liberdade”, como escreveu em A pedagogia do Oprimido, destacou a importância de um conhecimento produzido em conjunto, em uma relação dialógica.

“O Brasil produziu muitos intelectuais na sua historia, mas pouquíssimos intelectuais têm o reconhecimento internacional em sua área. Paulo Freire está entre esses poucos. Freire é um dos autores importantes no debates educacionais internacionais. Precisamos ter um profundo respeito por esse sujeito tão raro que é o Paulo Freire e, acima de tudo, ler a sua obra para criticá-la ou para dar continuidade a ela”, encerra Maurício Ernica, da Unicamp.

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