O ronronante plano para conquistar o mundo

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Lentamente, ele vem andando e lançando olhares sedutores, com aqueles olhinhos azuis que deixam a gente hipnotizada. Tento me aproximar, mas ele finge que não é com ele e sobe no playground novo.

Bob Dylan é um gato branco, tem 4 anos e foi resgatado da rua. Ele mora comigo e mais seis irmãos felinos. O Pimpo, como ele é carinhosamente chamado por mim, faz parte de um grupo de pets que aumenta nas casas dos brasileiros e no mundo: os gatinhos. No Brasil, o mercado pet faturou mais de R$ 40,1 bilhões em 2020 e ficou atrás apenas de Estados Unidos e China.

E preparem-se: os gatos vão dominar o mundo. Aqui no Brasil, eles já são quase 25 milhões. As estimativas das entidades que representam o setor pet é que eles vão ultrapassar os cães nos lares brasileiros (aqui em casa eles já são maioria absoluta). Com um filão tão atrativo, o mercado de produtos para gatos cresce ano a ano. E abre oportunidades para pequenos e médios empreendedores, principalmente para quem comercializa produtos para gatificação.

Gato adora ficar no alto observando tudo. Na verdade, isso faz parte do instituto de caça dele. Na selva, a onça pintada, por exemplo, passa boa parte do dia em cima de árvores cuidando do seu território. Felinos gostam de se esconder e se camuflar. Além disso, amam esticar bem aqueles corpinhos que parecem feitos de borracha, quando se contorcem fazendo inveja para muito praticante de yoga.

Mundo dos gatos

A bancária Thaíse Franchi, de 42 anos, era marinheira de primeira viagem quando adotou o gatinho Bowie há 6 anos. Como ela mora em apartamento, queria encontrar uma forma de tornar o espaço mais agradável para o bichano. Foi aí que ela começou a pesquisar e viu no programa Meu gato endiabrado, do norte-americano Jackson Galaxy, especialista em gatos, que a verticalização é muito importante para aumentar o bem-estar e estimular atividades para os gatinhos.

“Quando mudei para o apartamento, pensei em ter um animalzinho. Mas não tinha planejado nada ainda. Um dia estava no meu trabalho e ouvi uma colega contando sobre um gato que a mãe dela havia resgatado em um condomínio, onde ele estava sendo maltratado. Não pensei duas vezes e decidi adotá-lo. Nem sabia como ele era. Só pedi um tempo para telar o apartamento e depois trouxe o Bowie, que é um lindo frajola”, conta.

Foi o primeiro mergulho de Thaíse no universo felino. Ela nunca tinha tido um gato e estava descobrindo o universo infinito que é um bichano. A bancária começou a assistir os programas de Jackson Galaxy e viu que em todos os projetos para melhorar a qualidade de vida dos felinos, a verticalização fazia parte. Adepta do “faça você mesmo”, ela decidiu que ia fazer um espaço especial para o membro de quatro patas da família.

“O primeiro projeto foi bem tosco. Eram prateleiras colocadas com mão francesa. Mas fiquei encantada quando o Bowie subiu e começou a se divertir. Gato não vê estética. O que ele quer é um espaço para que possa fazer o que um felino faz: se exercitar, descansar e vigiar”, comenta.

Ela diz que aprendeu com Jackson Galaxy o conceito que ele chama de “o gato essencial”, que é permitir que o animal vivencie no seu dia a dia todos os seus instintos. Gatos são caçadores, gostam de observar de cima o território e adoram se esconder. Mesmo sendo um projeto experimental, as prateleiras de Thaíse fizeram sucesso entre as amigas gateiras que pediram para ela começar a vender essa ideia.

Animada, a bancária chamou o pai Astor Franchi para embarcar no projeto e os dois começaram a criar a linha de produtos da Gato no Alto. A marca, como o próprio nome diz, oferece uma linha com redes de tecido, pontes, nichos, arranhadores, plataformas e rampa de sisal. “Lembro que postei nas redes sociais o primeiro projeto-teste que fiz para sentir o potencial dos produtos e a aceitação dos gatinhos. Logo de cara consegui o meu primeiro cliente, que me pediu um projeto muito legal”, afirma.

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Bob Dylan aproveita o vento soprando da janela em uma das prateleiras projetadas pela marca Gato no Alto: sempre por cima

A Gato no Alto foi criada há três anos. O catálogo da empresa passa nesse momento por uma reformulação que deve trazer novidades. Muitos produtos foram criados a partir de pesquisas da empreendedora e também dos pedidos dos próprios clientes. No catálogo oficial não há comedouros elevados, mas a marca também produz por encomenda. Por mês, Thaíse e seu pai produzem e instalam entre quatro e cinco projetos.

O custo médio de cada um é de R$ 900,00. Ela afirma que, além da preocupação com o bem-estar dos gatinhos, sua marca também tem como objetivo integrar o projeto com o ambiente e a decoração da casa dos tutores. Assim, o cliente escolha as cores e modelos das peças que farão parte do projeto.

Thaíse hoje tem três gatos no apartamento – Bowie, Ameixa e Tetê. E a família ainda tem um gatinho, o Pretorius, que mora na casa da mãe da empreendedora. Quando entrou no mundo dos gatos, ela aprendeu a amar essas “pessoinhas” companheiras, inteligentes, amorosas e que ensinam muito. A bancária é voluntária em uma ONG e também ajuda a cuidar de uma colônia de bichanos que fica próxima de onde ela mora.

Mais do que uma empresa, a Gato no Alto e os gatinhos da família foram fundamentais para que a empreendedora passasse por uma mudança profissional e também pessoal. Outro fato positivo é que a empresa deu a oportunidade para o pai de Thaíse, Astor, de 70 anos, se manter ativo e trabalhando. “Meu pai é fantástico. Ele é um ótimo profissional e, provavelmente, por conta da idade estaria fora do mercado. Ele faz toda a marcenaria. Nós dois fazemos a instalação e eu também sempre troco ideias com ele sobre os projetos”, diz.

Thaíse conta que a adoção dos gatos abriu um outro mundo que a transformou em uma pessoa melhor. Questionada sobre o que os gatinhos significam na vida dela, a empreendedora não hesita em responder: “Eles são a minha família”.

Recomeço

A família Yamaguti mora em Carapicuíba, na Grande São Paulo, e vive uma história de superação que tem os gatinhos como um novo caminho para “seo” Mituo, dona Claudimeia Maria e o filho Claudiney Augusto. Há alguns anos, seo Mituo descobriu um linfoma agressivo que já tomava conta do corpo todo. Os médicos deram apenas 2% de chance de sobrevivência ao câncer. E, se por um milagre sobrevivesse, provavelmente ficaria tetraplégico.

Dona Claudimeia, com o sangue quente dos italianos, não se deu por vencida: disse aos médicos que o marido ficaria curado. A luta não foi fácil. Tratamento, sair do emprego sem nem se despedir dos amigos ou pegar as coisas que ficaram na gaveta, e a certeza de que a vida não seria mais a mesma.

A família teve que escalar vários “Everestes” – mas viu seo Mituo se recuperar. Aí chegou 2020 e a pandemia do Coronavírus. “Começamos a confeccionar máscaras. Decidimos que íamos fazer as máscaras para doar. O Ney trabalha em uma UBS (Unidade Básica de Saúde). Eu e o Mituo colocamos toda a nossa energia na confecção das máscaras”, conta dona Claudimeia.

Com o passar dos meses, muitas pessoas também passaram a confeccionar as máscaras e o casal Yamaguti procurou por outra ocupação para passar os dias da pandemia em casa. A família tem três gatos – Theo, Mingau e Donatela, todos adotados. “Tenho um outro filho casado que não mora com a gente. Minha nora comprou uma casinha para os gatos deles. Eu e o Mituo pensamos em comprar para os nossos também. Mas tudo que a gente via na internet achava que não estava bom ou era muito fraco”, diz a empreendedora.

Eles decidiram então criar um projeto deles. Começaram a pesquisar produtos para gatinhos e viram um mundo de oportunidades, já que os felinos estão mesmo rumo à dominação mundial. Os primeiros projetos foram da casinha. Depois vieram caminhas suspensas e redinhas. Os primeiros “clientes” da empresa foram os próprios gatinhos da família e dos amigos.

Os nichos, que hoje são o carro-chefe da Gatto & Neko, apareceram depois. Quando seo Mituo melhorou do tratamento contra o linfoma, a família fez uma festa para comemorar. Claudiney preparou uns vasos trançados com fios de sisal e o pai ajudou. Foi daí que a família tirou a inspiração para fazer uma charmosa e confortável “toquinha” para os gatos.

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Um dos nichos criados pela Gatto & Neko: história de superação de humanos com “apoio” dos felinos

“Quando meus pais decidiram que iriam investir nesses produtos, eles me pediram ajuda e decidimos fazer tudo certinho. Fizemos todo um estudo de marca. Escolhemos um nome que tivesse um significado para a gente. Trabalhamos estratégias de vendas. Tudo. O nome Gatto & Neko é a junção da palavra gato no italiano da minha mãe e neko, que é gato em japonês, que vem do meu pai”, explica Claudiney.

Nem eles imaginavam que o interesse pelos nichos redondos, feitos de barbantes e com uma almofada confortável que complementa o produto, fosse ser tão rápido. Assim que Claudiney começou a postar nas redes sociais, os primeiros clientes apareceram de imediato. Os nichos têm uma paleta de cores que permite combinar a “toquinha” com a cor da pelagem do gato, com a decoração da casa ou com a cor preferida do “pai” ou “mãe” do bichano.

Seo Mituo conta que fazer o nicho demanda paciência e muita atenção. “Leva pelo menos uma semana para ficar pronto. Se o tempo estiver mais úmido, demora um pouco mais porque é preciso esperar mais pela colagem. Nós fazemos todo o processo de forma artesanal”, diz. Hoje, os produtos para os gatinhos são a ocupação do casal. E todo o amor e gratidão que seo Mituo tem pela vida, ele coloca em cada nicho que a Gatto & Neko faz para seus exigentes clientes.

A produção de nichos passa de 30 peças por mês. Como o custo da logística de entrega do produto não é tão simples em um País de tamanho continental, as vendas da marca estão mais concentradas na capital paulista e no Estado de São Paulo. Mas os produtos são distribuídos por um comprador em outras partes do Brasil e também são comercializados em clínicas veterinárias. O cliente de outro lugar do País que quiser comprar diretamente com a Gatto & Neko tem que fazer a conta do valor do frete – que pode pesar.

Os nichos da Gatto & Neko caíram tanto no gosto do público que, mesmo quem não tem nenhum animal em casa seja gato ou cachorro, pede para comprar. “Percebemos que tinha aí uma nova oportunidade de produto. E adaptamos o nicho para que ele virasse também um vaso. Então, também temos essa opção de vaso com o mesmo trançado dos nichos”, diz Claudiney.

A família Yamaguti afirma que os gatinhos foram responsáveis por resgatar a autoestima, estimular a criatividade e, principalmente, unir ainda mais todos eles na missão de sempre incentivar seo Mituo a continuar vivendo com alegria e bastante saúde. Theo, Mingau e Donatela também agradecem pelo carinho e dizem que estão sempre dando uma força para os três empreendedores na tarefa de fazer mais gatinhos e seus tutores felizes. A Gatto & Neko também ajuda outros gatinhos com doações de nichos para ONGs.

Líder da dominação

Fofinho, tigrado, simpático, fotogênico e descolado. Todos esses adjetivos já bastariam para derreter o coração dos gateiros, mas o gato Chico, “CEO” da Cansei de Ser Gato, é o chefe supremo da dominação mundial felina. Ele tem oito anos e foi adotado ainda pequeno pelas suas humanas Amanda Nori e Stefany Guimarães.

Chico é um fenômeno nas redes sociais, com mais de 560 mil seguidores só no Instagram, e a marca Cansei de Ser Gato é um sucesso na venda produtos para os felinos e seus humanos. Tudo começou em 2013, quando o peludo entrou nas redes sociais, e as suas humanas tiveram a ideia de transformar Chico em médico, enfermeiro, professor, dinossauro e outras coisas do tipo.

A frase inicial sempre era “Cansei de Ser Gato”, completa com “virei médico”, por exemplo. E lá estava a foto do Chico vestido de médico. Foi assim que a marca começou a vender produtos, como as gravatinhas e as fantasias do simpático gatinho. A linha foi crescendo e hoje tem desde canecas até castelos de papelão para os reis e rainhas felinos. O “pet influencer” e líder da dominação também tem contratos de exclusividade com marcas de empresas de áreas como eletrodomésticos, ração e chocolate.

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Chico, o “CEO” do Cansei de ser gato: fenômeno das redes sociais e “líder” dos planos de dominação mundial

Além das duas humanas, Chico vive em um apartamento em São Paulo com outros companheiros de quatro patas: Madalena, Sebastião e Terezinha – todos tigrinhos e embaixadores da marca. Logo eles vão mudar para uma casa no Interior de São Paulo. Chico foi encontrado em um sítio em São Roque, com apenas três meses, e foi adotado por elas.  

Na verdade, o grande objetivo do Chico é concretizar a dominação mundial felina. A julgar pelo engajamento dos seguidores nas redes sociais e o sucesso dos produtos da Cansei de Ser Gato, está no caminho certo para atingir essa meta. Ele já domina milhares de corações com seu jeito simpático e estiloso. A Cansei de Ser Gato também é engajada em apoiar ONGs que atuam com resgate, cuidados e doação de gatinhos.

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Adoção

Infelizmente, os gatos ainda são animais que sofrem maus-tratos por crendices e maldades, mesmo sendo animais dóceis, companheiros, inteligentes e fáceis de se adaptar. Claro que muitos deles, quando são resgatados das ruas, chegam assustados e, muitas vezes, bravinhos. Mas nada que amor e paciência não transformem a “pessoinha” felina em um docinho.

Em Campinas, ONGs, protetores independentes e o Departamento de Bem-Estar Aninal de Campinas (DPBEA) têm muitos animais esperando pela adoção. Se você quer um amigo, companheiro e um amor para uma vida, abra o seu coração para um gato. E dê uma oportunidade para os gatinhos adultos também.

Não compre. Adote

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