Sem rastreamento eficiente, números da pandemia não vão melhorar tão cedo

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Foto: Agência Brasil

A falta de um sistema de rastreamento de pessoas contaminadas pela Covid, principalmente as próximas aos pacientes com suspeita já identificada, impede que o atual avanço da vacinação garanta uma redução sustentável de casos e internações em Campinas e no País.

A opinião é do epidemiologista André Ribas de Freitas, da Faculdade São Leopoldo Mandic e membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC). Segundo ele, apesar de a cidade se aproximar de um índice de imunização de 30% na primeira dose – que em países como Estados Unidos e Israel foi o percentual em que se atingiu o chamado “ponto de inflexão” da pandemia, ou seja, o ponto a partir do qual o número de novas infecções diminuiu sensivelmente – por aqui ainda falta uma ação essencial adotada em larga escala por eles: o mapeamento dos doentes e seus contatos e o isolamento de todos eles.

Outro fator considerado é a existência de novas cepas do Novo Coronavírus em circulação no País, situação que inclusive preocupa a Prefeitura (leia mais abaixo). Em Campinas, a vacinação alcançou neste fim de semana o índice de 29% de primeiras doses aplicadas, chegando a 356,4 mil pessoas. Dessas, quase 168 mil já retornaram para a segunda dose – somando 524 mil doses aplicadas, aproximando-se de metade da população estimada da cidade (1,2 milhão de habitantes), conforme o Vacinômetro do governo do Estado, em atualização da manhã desta segunda-feira (7). Mesmo assim, os números continuam preocupantes.

“Nos Estados Unidos não foi só o avanço da vacina que começou a derrubar os casos. Falar isso seria como falar de uma nova cloroquina. O resultado só foi atingido com o avanço da vacina junto a um vigoroso rastreamento de pessoas que tiveram contato com quem teve Covid. Afinal, um doente começa a transmitir dias antes de sentir os sintomas, então não se pode esperar controlar a doença focando apenas no paciente. As pessoas próximas também precisam ser isoladas para interromper a transmissão”, diz Ribas. O especialista ressalta ainda que, em Israel, mesmo antes da chegada das vacinas, esse programa de rastreamento já estava bem consolidado e permitia um melhor controle das infecções no país.

Segundo ele, enquanto a vacinação no Brasil não chega a um número significativo – acima de 70% da população – vamos conviver com outros fatores que trazem o risco de novas ondas de infecção. Além da falta de rastreamento, há a circulação de variantes como a P1 (chamada Cepa de Manaus), comprovadamente mais contagiosa, e o fato de a maioria da população economicamente ativa não ter sido vacinada – até agora, as doses chegaram a idosos, grupos profissionais específicos e pessoas com comorbidades.

“Hoje a taxa de transmissão no País é de 1.1, considerada alta. Com vacinação e restrições, cai para 0.8, e aí volta a liberar a circulação – e a taxa aumenta de novo. Então, é preciso adotar ações de controle – e não precisa ser um lockdown. Não se trata só de restringir. O importante é identificar, encontrar as pessoas que tiveram contato com um doente e isolar essas pessoas em casa. Mas nosso parâmetro é errado, baseado simplesmente em lotação de UTIs. Isso não é controle. Controle é evitar que a pessoa vá para a UTI, porque quando se chega lá, o índice de morte é de 50% a 60%”, alerta. 

Ações públicas

A Prefeitura de Campinas tem trabalhado nos últimos meses com um controle da Covid-19 baseado no monitoramento do número de pessoas que procuram os serviços de saúde com sintomas e de novas internações. Caso haja uma elevação constante de mais de duas semanas nesses índices, a ideia é adotar novas medidas de restrição de circulação mesmo que as UTIs ainda não estejam lotadas.

Há duas semanas, o governo municipal anunciou estar próximo de voltar a endurecer essas restrições de circulação após um aumento de 36% da demanda de pacientes com sintomas, mas as medidas não chegaram a ser adotadas após a avaliação de que esse índice não seguiu aumentando. Campinas também prevê iniciar ainda este mês um projeto-piloto para rastrear os contatos de pessoas que procurarem o sistema de saúde com sintomas de Covid. Esse monitoramento deve começar em algumas unidades de saúde da região Sudoeste (distrito do Ouro Verde).

Em entrevista ao RadarC no início da semana passada, a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa) de Campinas, Andrea von Zuben, disse que a vacinação de grupos de risco e as restrições adotadas em março e abril ajudaram a reduzir o número de mortes por Covid na cidade. Porém, há a preocupação de uma nova onda caso a população volte a se aglomerar em festas e reuniões familiares e também devido à identificação da cepa indiana do Coronavírus no País.

Andrea disse que um índice de 30% de vacinação ainda não seria suficiente para refletir em queda de contaminações. “Dá para ver diminuição de casos por faixa etária (especificamente, os idosos), mas ainda acho que precisa de mais vacina para esse tipo de resultado. A nossa base é a pesquisa em Serrana (SP), que atingiu resultados com 75% da população vacinada”, afirmou.

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