Carlo Carcani Filho

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23/10

O talento e os números que especialistas fingem não ver 

A Seleção Brasileira fez, diante do Uruguai, uma de suas melhores apresentações nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2022. Apesar da campanha impecável – dez vitórias e um empate –, a equipe foi criticada por algumas atuações tecnicamente ruins. A eficiência absurda dos números nem sempre foi compatível com o estilo de jogo que o torcedor espera da Seleção Brasileira. Para os únicos pentacampeões do planeta, ganhar é importante, mas encantar e atacar também.

É curioso que parte de uma torcida tão exigente despeje tantas críticas a um atleta fora de série como Neymar nas redes sociais. É importante frisar que essa legião de críticos se concentra na internet, já que nos estádios a torcida o trata como estrela maior da Seleção Brasileira.
Não faz o menor sentido atribuir a Neymar todos os problemas da equipe. Primeiro porque a equipe pode ter atuações medianas de vez em quando, mas apresenta aproveitamento é absurdo. E Neymar é, indiscutivelmente, o mais capacitado para liderar grandes atuações do time. 

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Os números do craque são inquestionáveis, assim como sua qualidade técnica. Basta vê-lo em ação ou analisar suas estatísticas para concluir que Neymar é, no momento, aquele que melhor simboliza a tradição do futebol bem jogado que acompanha a camisa amarela desde a década de 1950.

Nenhum jogador fez mais assistências pela Seleção do que Neymar. Contra os uruguaios, foram mais duas. O belo gol que abriu o placar em Manaus foi o 70º do atacante pelo Brasil. Entre as seleções da América do Sul, só três jogadores chegaram a essa marca: Pelé, Messi e Neymar.

Diante de tudo isso, já é estranho que torcedores o critiquem nas redes sociais. E o que dizer então de comentaristas esportivos, os “especialistas” que enxergam no melhor jogador do País um “problema”? Por que Casagrande, por exemplo, acha que Tite deveria tirar do time um jogador que é o segundo maior artilheiro da história da Seleção e que é o vice-artilheiro das Eliminatórias?

A Seleção venceu as últimas 23 partidas nas quais Neymar fez ao menos um gol. Falamos de um jogador que colocou a bola na rede 432 vezes e fez 251 assistências em uma carreira que, até aqui, tem 691 jogos. Com esses números, seria titular mesmo que enfrentasse uma concorrência muito forte. Como é incomparavelmente melhor do que qualquer outro brasileiro da posição, é óbvio de que não faz o menor sentido imaginar que a equipe possa jogar melhor sem ele.

Neymar não está acima de ninguém e pode ser criticado como qualquer outro atleta, talentoso ou limitado, famoso ou coadjuvante. Mas muito do que se fala e se escreve sobre ele não faz o menor sentido e isso o incomoda, já que ocorre com frequência. Muitas dessas críticas são motivadas por outros fatores, sem nenhuma relação com o que o camisa 10 apresenta em campo. E esses ataques, com outros interesses, fazem com que alguns torcedores – poucos, felizmente – tratem Neymar nas redes sem o reconhecimento que ele faz por merecer desde sua estreia na Seleção Brasileira. 

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16/10

O desejo de competir e a hora de parar

O Grêmio anunciou, no último domingo, a demissão de Luiz Felipe Scolari. Após derrota para o Santos, o treinador foi dispensado quase 15 meses antes do final do seu contrato, assinado em julho. A passagem curta e frustrante não apaga sua bela história no clube.

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Com sete títulos conquistados entre 1987 e 1996 (tricampeão gaúcho, campeão brasileiro, da Copa do Brasil, da Libertadores e da Recopa Sul-Americana), Felipão será para sempre um ídolo do Grêmio. A questão é: aos 72 anos, deve continuar se expondo em situações como essa? Está na hora de encerrar a brilhante carreira ou ele ainda tem mais a dar ao futebol?

Para quem vê de fora, é fácil concluir que passou da hora de Felipão trocar a tensão do vestiário por uma aposentadoria para lá de tranquila. Mas as coisas não são tão simples assim. Primeiro que, por mais recheada que seja a sua conta bancária, é difícil dizer não a propostas de meio milhão (talvez um “pouco” mais”) por mês.

Mas imagino que o dinheiro já não pesa tanto assim. O que deve manter Felipão em atividade é o seu desejo competir. E isso só sabe explicar quem já ficou ali ao lado do gramado, disputando jogos memoráveis e emocionantes durante anos e anos.

Entendo, portanto, que Felipão ainda tenha paixão pelo trabalho, mesmo sendo milionário e já não sendo mais um garoto. Mas ele deveria levar em consideração que não terá mais oportunidades de dirigir times capazes brigar por títulos, como aconteceu durante os melhores momentos de sua vida.
Em 2021, o Grêmio já foi dirigido por Renato Gaúcho (demitido pouco depois de ter seu contrato renovado), Tiago Nunes e o próprio Felipão.

O clube está bagunçado, fez contratações que não deram certo e está morrendo de medo de ser rebaixado para a Série B. Demitir Felipão foi uma cartada de desespero, já que tem poucas rodadas para reagir e ainda vai brigar diretamente pela permanência com outros clubes tradicionais, como São Paulo e Santos.

Felipão, portanto, será chamado para apagar incêndios como esse. Se conseguir, não terá feito mais do que a obrigação. Se falhar… No Cruzeiro ocorreu algo parecido. Foi contratado para reconduzir o time à elite e falhou.

A culpa, na verdade, não foi dele. Jorge Machado, empresário de Felipão, revelou nesta semana que salário atrasado foi apenas um dos problemas do time no ano passado. Ele contou que chegou a faltar dinheiro para comida na concentração e que o treinador pagou passagens de atletas em algumas viagens porque o Cruzeiro não tinha dinheiro.

Entendo que Felipão deseje continuar no futebol. Ele tem espírito competitivo e quer desfrutar da bola por mais tempo. Mas deveria avaliar que dificilmente terá nova oportunidade de acrescentar conquistas ao seu currículo. E tentar consertar times ruins e vestiários tensos a essa altura da vida talvez não seja a melhor opção. Torço para que o comandante do penta tome a melhor decisão. É bom vê-lo no futebol, mas não em situações semelhantes às que viveu em 2020 e 2021. 

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